sexta-feira, 5 de junho de 2015

:: Conto :: Diva da noite macabra: A noite me pertence

                                                         




                               Diva da noite macabra em:  A noite me pertence


O característico ar gelado da madrugada não tem efeito sobre mim,não por está escondida em um nicho mas sim por ter me transformado, há seculos, em uma predadora. E como uma predadora de oportunidade,escolhi essa rua com pouco movimento e sem iluminação,a espera de uma presa desavisada.

Pouco tempo de espera e ouço vozes alteradas vindo da rua paralela a minha direita.Alguns minutos depois ela vem em minha direção. Negra com lindos cachos volumosos,cheia de curvas,vestido curto e salto alto. Tem um cheiro delicioso. Uma presa fácil.  Fácil demais, saciaria minha fome mas não meus instintos.


Quando passa por mim,a vejo em uma tentativa frustrada de secar as lagrimas. Seu cheiro torna-se quase insuportável,meu estomago reclama,ha dias que não me alimento,resisto e a deixo seguir seu caminho. A observo caminhar por mais cem metros e dobrar a esquina,ainda sinto seu cheiro e a fome aumenta mas sou paciente e a noite me pertence.

Duas horas se passam e continuo confortavelmente na mesma posição. Quando um aroma deliciosamente invade o ar,instintivamente inclino a cabeça farejando,buscando a direção de onde vem o cheiro. Dou alguns passos na calçada paro e nesse exato momento  três  rapazes vem pelo mesmo caminho que a moça desapareceu.  O cheiro pertence a um deles, mas é tão forte que não consigo identificar seu dono.

Enquanto eles vem pela rua conversando animadamente e vou ao encontro deles, assim que me avistam dois deles sob o nítido efeito de álcool começam com os típicos gracejos.

Quanto ao terceiro  estaca no momento que me vê e é nessa hora que percebo que é dele o cheiro que tanto me desperta os sentidos. Ele sente que algo esta errado,não sabe ao certo o que é,talvez meu olhar felino,ou minha postura de ataque,ele não entende como uma figura tão frágil pode lhe causar tanto medo. Logo daria motivos para me temer ainda mais.

Os dois rapazes me cercam,tentando me tocar mas tenho olhos apenas para minha presa principal,nem precisaria vê-lo para saber onde esta,seu cheiro me guiaria. Antes teria que me livrar dessas presas menores,que em outras circunstancias seriam uma agradável refeição mas hoje tenho algo melhor para comer.

Coloco a mão no peito do rapaz maior e mais forte,sedutora me aproximo e lentamente alcanço seu pescoço,com unhas feito garra
arranco sua traqueia, língua e algo mais,sinto seu sangue quente escorrer pelo meu pulso até o ante braço e gotejar no chão enquanto seu órgão ainda pulsa na minha mão e um cheiro agradável invade minhas narinas. O corpo do rapaz cai no chão,sem vida,como um brinquedo que se tira as pilhas.

Olho a tempo de ver minha presa principal dobrar a esquina correndo desesperado e o segundo rapaz embriagado,brigando com as pernas,tenta impor o máximo de distancia entre ele e eu.  Jogo o órgão para seu dono no chão e vou atras da minha próxima vitima.

Rapidamente chego até ele e com uma mão no pescoço e a outra na cintura o ergo acima da cabeça e do mesmo jeito que quebrava galhos no joelho durante a  infância, quebro sua coluna, até o som da coluna se partindo é parecido. 

Deixo os corpos ali e sem olhar para trás vou atras do que me interessa. Minha presa principal já não esta mais a vista mas ainda posso sentir o seu cheiro e sei onde ele esta e em um percurso que ele deve ter levado sete talvez dez minutos eu o alcanço em segundos.

Seguro por uma das mãos e o sinto se debater e tentar me acertar com alguns golpes,não me defendo,pouco ou nenhum efeito sua força tem sobre mim. Como um gato, aprecio seu desespero.Quanto mais desesperado mais rápido seu coração bombeia o sangue mais apetitoso ele me parece. Emprego um pouco mais de força e sinto seu pulso quebrar,forço a se encostar no muro e a se ajoelhar, facilitando assim meu acesso ao seu pescoço.

Quem ali passasse pensaria se tratar de uma romântica cena,onde o apaixonado rapaz se declarava para a meiga namorada. Olhando agora mais de perto não a nada fisicamente  atraente nele,magro demais,olhos muito juntos, vesgo talvez,nariz aquilino, lábios finos.Mas é o cheiro que me agrada,como uma fina iguaria,me faz salivar.

Mesmo antes de me transformar algumas pessoas exerciam certo fascínio sobre mim,não importava sexo, idade, nada. Simplesmente parava e ficava observando essas pessoas até que constrangidas se afastavam. Hoje eu sei que o que o exercia esse fascínio era o cheiro dessas pessoas,algo que nenhum produto químico consegui camuflar. Talvez por isso me transformei, já estava destinada a me tornar predadora.

Ele ainda tenta se levantar,escapar mas seu esforço é em vão. Minha fome é insuportável, umedeço os lábios,checo minhas presas,colo minha boca em seu pescoço,minhas presas encontram certa resistência mas logo atinge seu objetivo.

Sem esforço o sangue é bombeado para a minha boca,o gosto é ainda melhor que o cheiro em êxtase me alimento como a anos não me alimentava,humanos com esse tipo de sangue são raros.

Não queria desperdiçar mas já estava satisfeita,minha vontade era de leva-lo e me alimentar aos poucos dessa rara iguaria. Infelizmente não seria possível correr esse risco,não quero passar de predadora a presa.

Olho em seus olhos e vejo que já não tem mais esperança,nem mesmo tenta se desvencilhar. Com as costas das mãos limpo o canto da boca,agradeço pela farta e saborosa refeição,encosto meus lábios ao dele e enquanto o beijo minhas mãos o estrangula. Já não se meche, até o cheiro desapareceu.

Deixo seu corpo meio caído,meio encostado e sigo em direção a rua,atravesso e chego a uma alameda. Satisfeita não vou precisar me alimentar por mais dois dias. Logo o sol ira surgir,vou pra casa consciente de que a noite é das criaturas sem alma. A noite me pertence.



Janaína Silva:
Janaina Silva "Todas as noites eu sonhava que caia em um buraco e era um buraco tão fundo que parecia não ter fim.E de tanto cair acabei por perceber que eu não caia...eu voava!Meus olhos determinam onde meus pés podem chegar e  meus sonhos dizem que posso ir além"Facebook